Setembro Amarelo e a urgência de ações concretas de prevenção do suicídio

Anualmente, durante o mês de setembro, instituições privadas, públicas e outras redes de apoio se unem no combate ao suicídio por meio da campanha Setembro Amarelo. Segundo o Ministério da Saúde, o suicídio atualmente é a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, os registros se aproximam de 14 mil casos por ano. Isso significa que o problema tira a vida de uma pessoa por hora no País. A estatística e a dor que ela causa reforçam ainda mais a importância do olhar cauteloso que a as instituições precisam ter para formular políticas públicas em saúde mental.

A campanha brasileira é inspirada na que se iniciou nos Estados Unidos, quando o adolescente Mike Emme, de 17 anos, cometeu suicídio em 1994. O acontecimento chocou pais e amigos do jovem que não notaram que ele lidava com transtornos psicológicos e assim não puderam ajudar Mike a lidar com sua dor. Durante a cerimônia de despedida de Mike, foi feita uma cesta com muitos cartões decorados com fitas amarelas, com a mensagem: “Se você precisar, peça ajuda”.

A fita amarela foi então escolhida como símbolo da campanha e também inspirou o slogan brasileiro: “Falar é a melhor solução”. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 90% dos casos podem ser evitados quando existem as condições para oferta de ajuda voluntária ou profissional.

A campanha nacional brasileira, que teve incício em 2015, foi um grande passo para a prevenção ao suicídio, que ainda é um tema envolto em tabus. A iniciativa partiu do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria.

O Setembro Amarelo é a estratégia inicial para dar importância à temática, promover adesão social ao tema e provocar a formação de uma opinião pública que perceba a necessidade de investimentos em saúde mental.

Um dos destaques é a atuação do CVV — Centro de Valorização da Vida. Fundado em 1962, é uma associação sem fins lucatrivos, reconhecida como Utilidade Pública Federal desde 1973. O CVV atua oferecendo apoio emocional e atende voluntariamente pessoas que querem e precisam conversar, com atendimento por e-mail e chat 24 horas, todos os dias da semana.

Além do Setembro Amarelo, existe também a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. A política é uma “ estratégia permanente do poder público para a prevenção desses eventos e para o tratamento dos condicionantes a eles associados.” Além disso, visa promover a articulação de diferentes redes de apoio para a prevenção do suicídio, envolvendo entidades de saúde, educação, comunicação, imprensa, polícia, entre outras. A adição oficial das escolas como espaços de discussão reforça o caráter público dessas ações. Por isso, é fundamental reconhecer a atuação Estado como provedor e auxiliador de estratégias e financiamento para ampliar o impacto das ações já existentes. É afinda necessário promover a intersecção com outros agentes, públicos e privados, para garantir a abrangência das campanhas.

Os projetos ligados à prevenção do suicício e dos comportamentos autolesivos, durante o governo Bolsonaro, estão vinculados ao Observatório Nacional da Família (ONF), que atua dentro do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. O Ministério reconhece que a família é a “matriz civilizatória e fundamento da sociedade brasileira” e “uma relação ‘original’ que possui exigências funcionais e supra funcionais exclusivas e, portanto, não passíveis de reivindicação por outras instituições sociais.”

Essa visão pode levar à criação de políticas públicas que não necessariamente são pensadas para apoiar a população no enfrentamento de um problema social muito mais abrangente – e que certamente extrapola a ação familiar.

Neste setembro, é hora de se rever a ênfase à Política Nacional, tirando-lhe a imposição dos padrões conservadores das campanhas em torno da saúde mental e do suicídio. Afinal, elas são feitas para apoiar a população e não promover ideais que podem agravar os problemas já existentes.